quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ORIGEM DA LÍNGUA PORTUGUÊSA -Coônego Fernandes Pinheiro



Cônego Fernandes Pinheiro (1825 – 1876)




Fungar vice colis, acutum
Reddere quae ferrum valet, 
exors ipsa secondi Horat., ad Pisones,  
vrs. 304-305.

Por contente me dou, 
fazendo as vezes de pedra d’amolar, 
que em si não tendo virtude de cortar,
dá corte ao ferro.

Tradução de Cândido Lusitano

LIÇÃO I
ORIGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA

Antes de analisarmos as diversas fases da literatura portuguesa, convém que digamos algumas palavras sobre a origem da língua que lhe serviu de instrumento.

Pensamos com o Sr. A. Herculano que Portugal é uma nação nova, nascida no XII século num ângulo da Galiza, constituída sem atenção às divisões políticas anteriores, di latando-se pelo território do Al-Gharb sarraceno 1, e rejeitamos portanto a tradição que a faz descendente dos antigos celtas, que por mais de três mil anos souberam conservar a sua vitalidade a despeito de todas as invasões por que teve de passar a Península Ibérica. 

Cremos ainda com o mesmo douto historiador que o moderno Portugal não ocupa exatamente o lugar de antiga Lusitânia: por isso que os territórios a que se deu tal nome se estendiam pelas províncias espanholas muito além das modernas fronteiras, ao passo que na primeira época não passavam, pelo lado do sul, além do Tejo, e na segunda findavam ao norte pelo Douro.
1 Hist. de Port. tom. I, intr, pág. 47.

Sabemos que fazia parte integrante da monarquia lio nesa o pequeno condado de Portucale, encravado na Galiza, até ao tempo de D. Afonso VI, que o constituiu em feudo quase que independente em favor de Henrique de Borgonha, casado com sua filha D. Tereza. 

Asseguraram-lhe a independência as vitórias de D. Afonso Henriques scbre os mouros e sobre seu primo D. Afonso VII, que se fizera proclamar imperador das Espanhas; e assim começou a sua nacionalidade. 

Até 1140 espanhóis e portugueses
constituíam um só povo, falavam uma só língua 
com ligeiras modificações.

Para esclarecimento deste ponto cumpre que retrocedamos alguns séculos e entremos em algumas indagações históricas. Refere-nos a tradição que em remotas eras duas emigrações sucessivas de iberos e de celtas partiram da Ásia para se estabelecerem na Espanha, e que depois de haverem por largo tempo disputado a posse do país, acabaram por confundir-se em um só povo, que tomou o nome de celtiberos, subdividindo-se em várias tribos, como as dos cantabros, asturos e vascônios ao norte, e calaicos e lusitanos ao ocidente. 

Vieram mais tarde fixar-se na Península colônias fenícias, ocupando as melhores posições marítimas, enquanto as gregas se estabeleciam nas ribas do Douro e do Minho. Este amálgama de raças sofreu ainda outra alteração com a chegada dos cartagineses, a quem a fama das riquezas ibéricas desafiava a cobiça. Posto que oriundos dos fenícios, haviam eles caldeado o sangue com o dos líbios, ou mouros, formando uma casta mista, conhecida pela denominação de libifenícios.

Ignora-se o tempo que foi mister despender para fazer destes diversos elementos um povo homogêneo; mas o certo é que já no VI século antes da nossa era Cartago contava na Espanha súditos leais e dedicados, que em prol dos seus interesses iam verter o sangue em longínquos climas.
Uma porção do existente Portugal, habitada pelos tur-detanos (celtofenícios) e pelos celtas das margens do Ana (Guadiana), havendo persistido em guardar a sua independência, foi submetida por Hamílcar e obrigada a reconhecer o poderio cartaginês.

Chegou porém o tempo em que, na eloqüente frase do Sr. Herculano, “o abraço de ferro da república romana devera cingir a Espanha para só a arrojar de si exausta e transfigurada nas mãos dos bárbaros do norte”. Por duzentos anos prolongou-se a guerra da conquista, e é um dos seus mais belos episódios a corajosa resistência do selvagem montanhês Viriato, que à frente dos lusitanos, desbaratou sucessivamente os exércitos de Mânlio e Pisão. Força porém foi ceder à disciplina e valor das legiões; e o domínio romano estendeu se por toda a Península, à exceção unicamente dos desvios dos Pirinéus, onde continuou com a sua agreste independência a raça indomável dos iberos, que resistira às anteriores invasões.

Quem tiver estudado cuidadosamente a história se recordará de que os romanos não empregavam só as armas para submeter nações; confiando por demais na superioridade de sua civilização introduziam entre os povos vencidos as suas colônias, leis e costumes; faziam troca dos seus deuses e sem ferir por forma alguma a suscetibilidade religiosa, conseguiam impor suas crenças, vazando os mais heterogêneos elementos no grande molde da sua vigorosa organização. 

Semelhante sistema aplicado à Espanha produziu os mais felizes resultados, e os restos das nacionalidades que a conquista cartaginesa não tivera tempo de fundir, entraram na vasta sociedade romana.

Quando no V século se desmoronava o colosso romano, que esmagara o mundo, vimos Gerôncio, governador de Espanha, abrir passagem pelos montes aos vândalos, alanos e suevos, que dividiram entre si o território que lhes entregara a traição. 

Ferozes e sanguinários esses filhos das brenhas não procuraram aliar-se com os naturais; assim pois, a sua passagem foi semelhante à dos meteoros, não tardando em serem substituídos pelos visigodos, que, mais brandos e civilizados, não repeliam os vencidos, ligando-se a eles por consórcios e fazendo com que um só código regulasse as transações de ambas as raças. Tornou-se o nome de godo genérico, e, como muitas vezes acontece, adotaram os conquistadores a religião, leis e costumes dos conquistados.

Tal era o estado da Península quando a conquista árabe lhe trouxe nova e importante modificação. A vingança do conde Juliano abriu a Espanha aos sarracenos e as águas do Guadelete se tingiram do mais puro sangue cristão. D. Pelágio, salvando na gruta de Covadonga as relíquias da nacionalidade goda, e começando essa Ilíada de oito séculos, apresenta-nos um dos mais curiosos espetáculos da história humana. 

Este pequeno reino de Oviedo, oculto nas montanhas das Astúrias, que, como imenso Briareu, estrangula os emirados muçulmanos, suplanta o califado de Córdova, e vai nas pessoas de Fernando e Isabel expulsar de Alhambra o último herdeiro de Abd-el-Rahman, é a mais brilhante demonstração de que jamais perece um povo que ilesa conserva a sua fé religiosa.

Profundos vestígios etnográficos deveram deixar as raças que sucessivamente estanciaram na Espanha; mas foram-se eles pouco a pouco apagando em virtude das novas invasões; e raros são os que se encontram na língua que falamos relativas as primeiras épocas.

Algumas poucas palavras célticas e fenícias, conservadas principalmente nas denominações geográficas, revelaram-se às pesquisas de nossos doutos filólogos: quanto porém aos vocábulos gregos, parece que nos foram transmitidos pelos romanos, havendo-se já perdido o uso des:e idioma na Península, bem como o do cartaginês.

Foi portanto a língua latina quase que a única falada por muitos séculos na Espanha, e alguns grandes nomes da sua literatura, como Séneca, Lucano e Marcial, viram ali a luz do dia. Não falava porém o povo um latim clássico, porque nem na própria Roma isso acontecia, como no-lo testifica Cícero; e a linguagem vulgar, transplantada pelos soldados e empregados subalternos da administração, mesclou-se com os dialetos indígenas, formando o dialeto rústico, ou popular, dsnde se derivou o romano, romance ou romanense, base dos modernos idiomas da raça latina.

Por mais pasmosa contudo que fosse a influência do latim, para o que poderosamente contribuíram as causas que havemos indicado, a que mais tarde se juntou a ação da prédica e liturgia cristã, não se estendia ela aos campos; porque, como muito bem observa o Sr. Guizot, a política dos conquistadores nas Gálias e nas Espanhas fora concentrar a população dentro dos muros das cidades para fazê-las esquecer até a sua língua nativa. Serviu porém um elemento, com que se não contava, de perpetuar os vestígios das antigas nacionalidades; queremos falar da escravidão.

Peçamos ao Sr. A. Herculano que nos explique este curioso fenômeno: “País domado pelas armas, a Península devera ter visto cair muitos de seus filhos na servidão. Era por meo de escravos que os romanos cultivavam as terras, e é sabido a que ponto de tirania a escravidão chegou entre eles. 

Os servos agricultores foram os mais oprimidos pela desuman!dade e capricho dos senhores do mundo. Longe da conversação civil, tratados ainda pior que os animais, tendo comumente por morada os cárceres subterrâneos das granjas, chamados ergástulos, sem proteção nas leis e tribunais, porque a morte ou a vida dependia da vontade do senhor, estes homens, malditos do mundo, e cuja sorte seria ainda terrível, comparada com a dos negros de uma roça da América, alheios à civilização, que se esquecera deles, cheios de terror e de ódio para com os habitantes das cidades, deviam conservar tenazmente os costumes e a linguagem mista de céltico, fenício, grego e púnico, em tudo aquilo que por seus donos lhes fosse consentido.

Quando porém as leis dos imperadores e a influência do cristianismo foram tornando mais suave a sorte daqueles desgraçados, quando a decadência do império e as invasões germânicas confundiram tudo, essa raça espúria, atirada ao meio de uma sociedade moribunda, cujos usos e linguagem se corrompiam rapidamente, devia, confundindo-se com ela, trazer-lhe também a sua parte de corrupção. É a esta causa que nós atribuímos principalmente os vestígios de tradições célticas, fenícias, gregas e púnicas, que ainda subsistem não só na língua mas também nos costumes.

Para essa alquimia lingüística trouxeram os visigodos seu contingente; e posto que se amoldassem eles aos usos e c:s-tumes dos povos vencidos, não deixaram de legar-lhes muitas locuções germânicas que se descobrem no nosso idioma.

Não podiam outrossim deixar de ressentir-se os dialetos hispânicos do longo domínio árabe; assim pois numerosos são os vocábulos que deles recebemos, e cuja enumeração sistemática fez um douto eclesiástico2.

Apesar da diversidade de crenças e da aversão de raça, viveram os cristãos em grande contacto com os sarracenos; porque, como se exprime o Sr. Villemain, “essa presença de tão grande número de muçulmanos, essa longa partilha do mesmo território, esse trato habitual, essa riqueza, esse gênio industrioso dos mouros, adoçava a aspereza da antipatia religiosa V

Na decomposição da língua romana cada província procedia por um método particular; a Catalunha, a Biscaia, o Aragão e a Galiza impregnavam os seus dialetos de palavras árabes e lançavam os germes de futuras línguas, que sem dúvida se formariam na Espanha se o guanté de Carlos V não lhes desse a unidade política, religiosa e literária.

Portugal, como já vimos, 
pôde cedo emancipar-se, 
formando distinta nacionalidade, e, 
sem renegar a sua origem

espanhola, fazendo-a derivar em linha reta dos antigos lusitanos, constituíu-se um povo independente pelo valor de seus filhos, e organizou um diverso idioma pelo lapso do tempo e perseverança de seus literatos.
Garfo destacado do tronco lionês, falando um dialeto mui próximo ao galego, conseguiu afastar-se cada vez mais dessa origem e, aproximando-se ao latim, criou uma língua sonora, enérgica, expressiva, que estranhos e imparciais juizes tanto gabam.

Concorreram igualmente para a organização da língua portuguesa o provençal e o normando que falavam os companheiros do conde Henrique de Borgonha”, e que com ele se estabeleceram nas margens do Douro; oferecendo-nos o romance d’Amadis de Gaula um padrão dessa literatura dos trovadores, tão geralmente apreciada no meio-dia da Europa. Muitos termos que hoje nos parecem galicismos datam do berço da monarquia, e foram usados pelos primeiros escritores p:rtu-gueses; provando-se desta arte que também este elemento entrou na formação da nossa língua.

Colige-se do que acabamos de dizer a futilidade da cen-sura que nos fazem alguns escritores estrangeiros de falarmos um dialeto do espanhol, como o genovês e o veneziano são para a bela língua de Dante. Deixemos que lhes responda um dos maiores engenhos que neste século honraram as letras portuguesas: “Grande semelhança há, diz Garrett, entre o português e o espanhol; nem podia ser menos quando suas capitais origem são as mesmas e comuns; porém tão parecidas como são pelas raízes de derivação, no modo, no sistema dessas mesmas derivações, na combinação e amálgama de idênticas substâncias e princípios, se vê todavia que diversos agentes entraram, e que mui variado foi o resultado que a cada um proveio. 

Filhas dos mesmos pais, diversamente educadas, distintas feições, vário gênio, porte e ademã tiveram: há contudo nas feições de ambas aquele ar de família que à primeira vista se colhe.

“Este ar de família enganou os estrangeiros, que sem mais profundar decidiram logo que o português não era língua própria. Esse achaque de decidir afoitamente de tudo é velho, sobretudo entre franceses, que são o povo do mundo entre o qual (por filáucia de certo) menos conhecimento há das alheias cousas1

Se tão nobre é a genealogia da língua portuguesa, se tão elevado posto ocupa na família neo-latina, porque não é ela mais conhecida e estimada? Causas diversas para isso concorrem, como em outro lugar examinaremos, não sendo das últimas o pouco apreço que lhe dão os seus naturais, que desprezam o seu estudo para engolfarem-se no de intrincados, pobres e ásperos idiomas.


Li

Fonte:
Fonte: editora Cátedra – MEC – 1978
CONSCIÊNCIA:.ORG
http://www.consciencia.org/origem-da-lingua-portuguesa
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

György Ligeti - Lontano


Enviado por em 04/03/2008
 
György Sándor Ligeti (pronunciado lígueti) fue un compositor húngaro judío (que residió en Austria y luego se naturalizó), ampliamente considerado como uno de los más grandes compositores de música clásica (sobre todo instrumental) del siglo XX.

Nació en Dicsőszentmárton (la actual Târnăveni en Rumania) el 28 de mayo de 1923 y falleció en Viena el 12 de junio de 2006.

 Fonte:
Enviado por em 04/03/2008

Categoria: Música - György-Ligeti-Lontano

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RUI CHAFES - EXPOSIÇÃO EM LISBOA - Setembro 2011




Exposição


Rui Chafes: 
Inferno (A minha fraqueza é muito forte)


A Galeria João Esteves de Oliveira, em Lisboa, inaugura esta quinta-feira, pelas 19h00, a exposição “Inferno (A minha fraqueza é muito forte)”, trabalhos sobre papel do escultor Rui Chafes. 

«Avesso a modas, 
criando a sua obra ancorado plástica 
e conceptualmente no gótico tardio
e no romantismo alemão, 
Rui Chafes é um artista peculiar.

É visto, consensualmente, como um dos maiores entre os contemporâneos portugueses», refere a nota de imprensa da galeria.

Os desenhos de Rui Chafes podem ser apreciados até 17 de novembro na Rua Ivens, 38, ao Chiado, no seguinte horário: segunda-feira, das 15h00 às 19h30; terça-feira a sábado: das 11h00 às 19h30 (ao sábado encerra das 13h30 às 15h00).

Do texto do catálogo, 
assinado por Paulo Pires do Vale:

«O que fere aquele que desenha?

O livro do Eclesiastes,
na sua sabedoria prática, afirma: 

“Quem cava um buraco, nele cairá. 
Quem escava um muro, uma cobra o morderá. 
O que transporta pedras, aleija-se nelas. 
O que racha lenha, fere-se nas lascas” 
(Ecl 10, 9). 

Aquele que desenha 
também não pode deixar de se ferir 
com o que trabalha: a sua própria ferida.

O que assalta aquele que desenha,
o objeto que se transforma em arma 
virada contra si, é o si-mesmo. 
Não o eu (ego), mas um si (ipse) por vir. 
E isso há de feri-lo até que venha. 

O artista aleija-se nessa violência 
que é a origem da obra - e que lhe é íntima,
transporta-a em si.
Em vez de esconder essa violência, usa-a. 

Mesmo que não a exponha. 
Ele sabe dar um bom uso à morte (1).
E nisso há uma dimensão profética. 

Aquilo que outros não querem ver,
ele não pode recusar. 
Afinal, aquilo onde cada um de nós 
se pode ferir é sempre na própria ferida.

Flor que nunca fecha.
No seu modo próprio e radical 
de abertura ao mundo. 

Esta ferida, como a metáfora indica, não é fechamento solipsista, mas abertura que conduz ao exterior, para fora de si - “talvez para fora de tudo”, julgava Blanchot (2). 

Essa forma de êxtase 
é modo de tocar o caos, 
a obscuridade, a violência, a noite. 

O artista tem de perder a luta contra o anjo,
tem de sentir o nada (3), para que, então, 
a sua fraqueza seja muito forte.
Para que possa vencer. 

O artista tem de assumir e alimentar a sua vulnerabilidade, ser capaz de se ferir, de se abrir: como dar atenção de outro modo? É dessa fraqueza que receberá a força. 

A fragilidade é a sua verdade – e por isso é a única força que o pode libertar. Simone Weil dizia que “quando um aprendiz se fere ou se queixa de cansaço, os operários, os camponeses, têm estas belas palavras:

“É o ofício que entra no corpo”. 
De cada vez que suportamos uma dor, 
podemos dizer-nos, com verdade, 
que é o universo, a ordem do mundo, 
a beleza do mundo, a obediência da criação a Deus 
que nos entram no corpo” (4).

A fragilidade é o nosso modo 
de abertura à verdade do mundo.

As feridas são um dom. 
É delas que surge a obra, porque é delas 
que se alimenta o artista. 
Desse perigo, que é também oportunidade
de se elevar do mais baixo para o mais alto.

O que faz o artista 
senão procurar no débil e fragmentário
a força do máximo? 

Nos seus gestos e obras 
não quer acrescentar mais objetos ao mundo, 
mas abrir nele fissuras.

A arte surge então como objeto sub specie aeternitatis (Wittgenstein). Essa sombra da eternidade sobre o tempo, permitirá o olhar do estrangeiro. A estranheza necessária à revolução. Coloca-nos no deserto, faz-nos atravessar as chamas. 

O que faz o artista
senão oferecer uma nova forma 
de presença do mundo? 
Uma vertigem inesperada.

Nesta ontologia quebrada, sustento frágil, quer do homem, quer das suas obras, que poder tem o desenho? 


O “pequeno intervalo” que é a vida de cada um, encontra um eco estranho nesse “pequeno intervalo” que é a obra de arte no mundo. 

O que a distingue das outras coisas é o estremecimento que pode causar por ser excecional. É o seu caráter de exceção (5), de estrangeira ao mundo mortal, que obriga a projetar um olhar novo sobre todos os outros intervalos. É a exceção injustificada que, no abalo que cria, justifica a regra, o geral, o mundo, a repetição mortal. Como poderia ser exceção se não assegurasse o geral? Mas fá-lo em luta. 

A exceção examina e interroga o geral, ao mesmo tempo que se pensa a si própria , mas o geral, o mundo, não quer ser posto em causa. Por isso, como as exceções, a obra tem de fracassar. Não seria uma exceção se não falhasse. 

Não salvará o mundo, 
mas pode mostrar-lhe o que ele é. 

Há na obra de arte a potência
de um inferno incendiário: 
o poder destruidor do fogo 
e dos líquidos corrosivos. 

É essa inquietação corrosiva que devemos esperar deste Desenho. Ele deita fogo ao que somos. É o ordálio que nos põe à prova. E aquele que atravessar este deserto com chuva de fogo sem se magoar, não está já vivo. 

É preciso amar o deserto,
a ausência, a ferida, 
para manter o amor à vida. 

Cuidar da escuridão,
para poder ver os mais brilhantes clarões. 
As altas estrelas, desejadas por Dante, 
só se veem de noite. 

O sofrimento aparece ao lado da beleza. 

Ele é o intensificador, que predispõe a olhar a vida com outros olhos. E por isso alegra-se e rejubila, como Constantin Constantius, pseudónimo de Kierkegaard: 

“viva o movimento das vagas
que me atiram no abismo, 
viva o movimento das vagas 
que me projetam até às estrelas!”

Quando olhamos para este Desenho de Rui Chafes, encontramo-nos a nós próprios, como estranhos, no inferno. E espantados, nesse estremecimento, sem armadura que nos proteja das feridas, chamamos por nós, como Dante ao ver incrédulo o filósofo e mestre amado que lhe ensinou “como o homem se eterna” : 

“Vós aqui, Senhor Brunneto?”» .

(1) A morte, como ensinou Weil, “é o que de mais precioso foi dado ao homem. É por isso que a impiedade suprema é usa-la mal.” (Weil, La pesanteur..., p.101).




 
Li

Fonte:
Portal da Cultura
http://www.snpcultura.org/rui_chafes_inferno_a_minha_fraqueza_e_muito_forte.html
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.