domingo, 27 de março de 2011

TRÊS TEORIAS DA VIDA - Max Heindel




Três Teorias da Vida

Apenas três teorias dignas de consideração são apresentadas como soluções ao enigma da existência e, com o propósito de que o leitor possa fazer a importante escolha entre elas, passamos a apresenta-las resumidamente, dando alguns dos argumentos que nos levam a defender a doutrina do Renascimento como o método que favorece o desenvolvimento da alma e a aquisição final da perfeição, oferecendo a melhor solução ao problema da vida.
 
1)              A Teoria materialista ensina que toda a vida e apenas uma curta jornada do berço ao tumulo, que não há no Cosmos inteligência superior à do homem, que sua mente e produto de certas correlações da matéria, e que, portanto, a existência termina com a morte e a dissolução do corpo.
 
Houve dias em que os argumentos dos filósofos materialistas pareciam convincentes, mas, à medida que a ciência avança, descobre-se mais e mais evidências de que há um lado espiritual no Universo. Que a vida e a consciência possam existir sem que disso nos seja dado evidência alguma foi plenamente comprovado nos casos de pessoas que se encontravam em transe profundo, consideradas como mortas durante vários dias e que despertaram repentinamente, contando tudo o que se passou em torno do seu corpo durante o transe. 

Cientistas eminentes, tais como Sir Oliver Lodge, Camille Flammarion, Lombroso, e outros homens de inteligência brilhante e capacidade cientifica, declararam inequivocamente, como resultado de suas investigações, que a inteligência que chamamos homem sobrevive à morte do corpo e continua vivendo em torno de nós, independentemente de a vermos ou não, como a luz e a cor existem em torno de uma pessoa cega, independentemente do fato de essa pessoa percebe-las ou não. Esses cientistas chegaram a essa conclusão depois de muitos anos de cuidadosa investigação. Eles descobriram que os chamados mortos podem, e o fazem em determinadas circunstâncias, comunicar-se conosco, de tal forma que qualquer engano a este respeito é inadmissível.

Sustentamos que tal testemunho é muito mais valioso do que o argumento do materialismo, porque é baseado sobre anos de investigação cuidadosa e porque está em harmonia com Leis tão bem conhecidas como a Lei da Conservação da Matéria e a Lei da Conservação da Energia. A mente é uma forma de energia e está imune a destruição, contrariamente ao que afirma o materialista. Portanto, podemos por de lado a Teoria materialista, por considera-la imprópria devido ao fato de ela não se harmonizar com as Leis da Natureza e com fatos bem estabelecidos.
 
2)              A Teoria Teológica proclama que, justamente antes de cada nascimento, é criada por Deus uma alma e esta entra no mundo, onde vive por um tempo que varia desde poucos minutos até um número não muito grande de anos; que no final desse curto espaço de vida, ela retorna, passando pelo portal da Morte ao invisível Além, onde permanece para sempre, num estado de felicidade ou de sofrimento, conforme as ações que tenha praticado em seu corpo durante os poucos anos em que aqui viveu.
 
Platão insistia na necessidade de uma definição clara dos termos como base de um argumento, e nos confirmarmos que isso é tão necessário ao tratar-se do problema da vida, do ponto de vista da Bíblia, como o é para os argumentos platônicos. De acordo com a Bíblia, o homem é um ser composto, que consta de Corpo, Alma e Espírito. Os dois últimos termos são, freqüentemente, tomados como sinônimos, mas nós insistimos em que não podem ser tomados um pelo outro e, para sustentar nossa afirmação, apresentamos a explicação a seguir.
 
Todas as coisas estão em estado de vibração. As vibrações dos objetos que nos rodeiam estão constantemente agindo sobre nós e trazem aos nossos sentidos o conhecimento do mundo exterior. As vibrações do éter atuam sobre os nossos olhos, para que possamos ver, e as vibrações do ar transmitem os sons aos nossos ouvidos.
 
Também respiramos ar éter que, desse modo, estão carregados das imagens e sons do nosso ambiente, e assim, pelo ato da respiração, recebemos internamente um quadro completo do ambiente que nos rodeia, em todos os movimentos da nossa vida.
 
Esta é uma proposição cientifica. A ciência não explica o que acontecerá com essas vibrações, mas, de acordo com os Ensinamentos dos Mistérios Rosacruzes, elas são transmitidas ao sangue e se gravam sobre um pequeno átomo no coração, tão automaticamente como são produzidas, na película sensível, as imagens cinematográficas, ou como se gravam os sons num disco. Esse registro tem inicio com a primeira inalação de ar da criança recém-nascida, e termina somente com o ultimo estertor do homem moribundo; a "alma" é um produto da respiração. O Gênesis também mostra a relação entre a respiração e a alma, nas seguintes palavras: "E o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o sopro da vida; e o homem se fez uma alma vivente." (A mesma palavra: nephesh é traduzida como respiração e como alma, na passagem citada.)
 
Na existência post-mortem dispõe-se do registro respiratório. Os bons atos da vida produzem sentimentos de prazer e a intensidade da atração incorpora-os ao Espírito, como poder anímico. Por conseguinte, o registro respiratório dos bons atos é a Alma que se salva e que, pela união com o espírito, se torna imortal. Acumulando-se esse Bem, vida após vida, nos tornamos mais ricos de alma, e, como conseqüência, isso também e a base do crescimento anímico.


O registro dos nossos maus atos 
também se processa por meio da nossa respiração,
nos momentos em que os cometemos. 

Cada um desses atos maus produzem dor e sofrimento para o espírito no Purgatório, e só depois de o espírito ter conseguido expiá-los é que esses atos se apagam do registro respiratório. Como essa parte da alma não pode viver independentemente do seu espírito vivificante, o registro da respiração correspondente aos nossos pecados se desintegra pelo expurgo e, desse modo, podemos verificar que "a alma que peca, morrerá". A recordação do sofrimento que se produz por ocasião da purgação permanece, entretanto, com o espírito, como consciência, para nos conter se tentarmos repetir os mesmos maus atos em vidas posteriores.
 
Dessa forma, todos os atos, bons ou maus, são registrados pela ação da respiração, que é, portanto, a base da alma; mas, enquanto os registros da respiração dos bons atos se amalgamam com o espírito, e nele vivem para sempre como alma imortal, o registro respiratório dos maus atos se desintegra e essa é a alma que peca e morre.
 
Ao mesmo tempo que a Bíblia afuma que a imortalidade da alma está condicionada as boas obras, nenhuma distinção faz com respeito ao espírito. A afirmação é clara e conclusiva quando se diz que: "Ao partir-se o cordão prateado... então o pó voltara a terra, de onde veio, e o espírito voltara a Deus, que o deu."
 
A Bíblia ensina que o corpo é feito de pó, ao qual voltara, e que uma parte gerada pela respiração é perecível, mas que o espírito sobrevive à morte do corpo e persiste para sempre. Portanto, uma "alma perdida", na acepção comum do termo, não é ensinamento bíblico, porque o espírito não foi criado e é eterno como o próprio Deus e, por isso, a Teoria Teológica ortodoxa não pode ser verdadeira.
 
3)     A Teoria do Renascimento, ensina que cada espírito e uma parte integrante de Deus, que contém em si todas as potencialidades divinas - assim como a bolota contém o carvalho - e que, por meio de muitas existências em corpos terrestres, de contextura gradualmente mais perfeita, seus poderes latentes vão sendo desenvolvidos lentamente e se tornam utilizáveis como energia dinâmica; e que ninguém pode perder-se, mas sim que todos, por fim, alcançarão a perfeição e a reunião com Deus, levando cada um consigo a experiência acumulada, como fruto de sua peregrinação através da matéria.
Ou, então, como podemos dizer em forma poética:
 

SOMOS ETERNOS

Numa nuvem tormentosa sibilando; na asa de Zéfiro,
O coro do espírito canta os hinos sacros do mundo, alegremente
Escuta! Ouve suas vozes: "Pelas portas da morte nós passamos,
a Morte não existe; alegrai-vos a vida continua eternamente" .
Somos, sempre fomos e sempre o seremos
Somos uma parte da Eternidade,
Mais velha que a Criação, a parte de Um Grande Todo,
Cada Alma é Individual, na sua imortalidade.
No tear farfalhante do Tempo, nossa roupagem formamos,
A rede do Pensamento urdidos eternamente;
O que é modelada na Terra, é no céu que planejamos
E ao nascer, nossa raça e nossa pátria, já as trazemos na mente.
Brilhamos em uma jóia e sobre a onda dançamos
Cintilamos em pleno fogo, a tumba desafiamos
através de formas várias em tamanho, gênero e nome
A essência individual é a mesma, é a que sempre carregamos.
E quando alcançarmos o mais elevado grau,
A gradação do crescer com nossas mentes relembraremos
Para que, elo por elo, possamos juntá-los todos
E passo a passo tragar o caminho que percorremos.
Com o tempo saberemos, o que realmente foi feito
O que eleva e enobrece, o certo e a verdade
Sem malicia com ninguém, sempre agindo com bondade,
Em e através de nós, a Deus será feita a Vontade.
 
 
Aventuramo-nos a dizer que há somente um pecado: a ignorância; e só uma salvação: o conhecimento aplicado. Ainda o mais sábio dentre nós sabe muito pouco de tudo quanto se pode aprender, e ninguém alcançou a perfeição, nem esta pode ser conseguida numa só e curta vida. Mas observamos que tudo na Natureza tende a se desenvolver lenta e persistentemente, procurando alcançar estados cada vez mais elevados; a esse processo chamamos de Evolução.
 
Uma das principais características da evolução esta no fato de que ela se manifesta em períodos alternados de atividade e repouso. O ativo verão, no qual todas as coisas sobre a Terra se multiplicam e procriam, é seguido pelo descanso e a inatividade do inverno. As atividades do dia alternam-se com a quietude da noite. 

O fluxo dos oceanos é seguido pelo refluxo das marés. Assim, como todas as coisas se movem em ciclos, não é razoável supor-se que a vida, que se manifesta sobre a Terra durante uns poucos anos, se acabe, quando a Morte chega, mas que tão seguramente como o Sol reaparece pela manhã, depois de ter-se ocultado ao chegar a noite, também a vida que terminou com a morte de um corpo há de manifestar-se outra vez num novo veiculo e num ambiente diferente.
 
Nossa Terra pode ser comparada a uma Escola a qual voltamos, vida após vida, para aprender novas lições, da mesma forma que nossos filhos vão à escola, dia após dia, para aumentar seus conhecimentos. A criança dorme durante a noite que medeia entre dois dias de escola, e o espírito também tem seu descanso da vida ativa entre a morte e um novo nascimento. Há, também, diferentes classes nesta escola do mundo, que correspondem aos diferentes graus, desde o jardim de infância até a Universidade. 

Nas classes inferiores encontramos Espíritos que só freqüentaram a Escola da Vida poucas vezes; estes são os atuais selvagens, mas com o tempo, far-se-ão mais sábios e melhores do que nos somos agora, e nós mesmos progrediremos em vidas futuras a alturas espirituais que atualmente nem podemos conceber. Se formos aplicados na aprendizagem das lições da vida, progrediremos muito mais depressa nessa escola da vida do que se folgarmos e desperdiçarmos nosso tempo. Isso obedece aos mesmos princípios que governam nossas instituições de ensino.
 
Nós não estamos aqui pelo capricho de Deus. Ele não colocou uns num jardim e outros num deserto, nem tampouco deu a alguns corpos saudáveis, de modo a poderem viver livres de dores e enfermidades, enquanto outros foram colocados em pobres circunstâncias que nunca se vêem livres da dor. Mas o que somos devemos à nossa diligência ou negligência, e o que seremos no futuro dependerá do que queiramos ser, e não do capricho de um Deus ou de um destino inexorável. Não importa quais sejam as circunstâncias; está em nós mesmos o poder de dominá-las, ou seremos dominados por elas, de acordo com a nossa vontade.
Sir Edwin Arnold exprime esta idéia de modo magnífico em seu livro A Luz da Ásia:
 
 "Os Livros dizem bem, meus Irmãos a vida de cada homem
de sua anterior existência vemos bem o resultado;
Trazem dores e misérias os erros que praticaram,
trazem bênçãos infinitas, os acertos do passado.
Cada um tem sua dignidade, como os mais altivos a tem
ao redor, acima e abaixo, com poderes ao dispor,
sobre toda a humanidade e sobre tudo o que vive
cada um livremente age causando alegria ou dor.
Quem labutou, um escravo, como príncipe poderá voltar
por virtudes alcançadas e por nobre merecer,
quem governou, um rei, em farrapos poderá vagar
por todas as coisas que fez e as que deixou de fazer."
 
Ou então, como disse Ella Wheeler Wilcox:
 
"Um barco sai para Leste e para o Oeste um outro sai
com o mesmo vento que sopra, numa única direção.
E a posição certa das velas e não o sopro do vento
que determina, por certo, o caminho em que eles vão.
Os caminhos do destino são como os ventos do mar
conforme nós navegamos ao longo e através da vida.
É a ação da alma que a meta nos vai levar
e não a calmaria ou o constante lutar."
 
Quando queremos que alguém se encarregue de uma determinada missão, escolhemos uma pessoa que nos pareça particularmente capacita da para cumpri-la e, assim, havemos de supor que um Ser Divino usaria pelo menos o mesmo bom-senso, e não escolheria qualquer um para levar esta mensagem se não estivesse capacitado para isso. Assim, pois, quando lemos na Bíblia que Sansão foi escolhido para destruir os Filisteus, e que Jeremias foi predestinado a ser profeta, é muito lógico supor-se que estavam particularmente aptos para levar a cabo sua missão. João, o Batista, também nasceu para ser o arauto do Salvador que estava para chegar e para pregar o Reino de Deus, que deve ocupar o lugar do reinado dos homens.
 
Se essas pessoas não tivessem recebido uma preparação prévia, como poderiam ter-se desenvolvido para cumprir suas várias missões e, se foram treinadas, de que modo o foram, se não em vidas anteriores?
 
Os judeus acreditavam na Doutrina do Renascimento ou, do contrário, não perguntariam a João, o Batista, se ele era Elias, como está no primeiro Capitulo do Evangelho de são João. Os Apóstolos de Cristo também sustentavam essa crença, como podemos ver pelo incidente relatado no Cap.16 de são Mateus, onde Cristo pergunta-lhes: "Que dizem os homens que Eu, o Filho do Homem, sou?" E os apóstolos responderam: "Alguns dizem que Tu és João Batista, outros que es Elias, e outros que es Jeremias, ou um dos profetas". Nesta ocasião, Cristo assentiu tacitamente com o ensino do Renascimento, porque não corrigiu seus discípulos, como seria seu dever, em sua qualidade de Mestre, se verificasse que seus discípulos tinham uma idéia errônea.
 
Mas a Nicodemos Ele disse inequivocamente: "A não ser que um homem nasça outra vez, não poderá ver o reino de Deus", e no Cap.11 de São Mateus, no versículo 14, disse Cristo, referindo-se a João, o Batista: "Este é Elias". No Cap.17 de São Mateus, no versículo 12, Ele disse: "Elias já veio, e eles não o conheceram, mas fizeram com ele o que quiseram..." . "então os discípulos compreenderam que Ele lhes falava de João, o Batista."
 
Assim, pois, nós sustentamos que a Doutrina do Renascimento oferece para o problema da vida a única solução que está em harmonia com as Leis da Natureza, que responde aos requisitos éticos da questão, e nos permite amar a Deus sem anular nossa razão, diante das desigualdades da vida e das circunstâncias diversas que dão comodidade e bem-estar, saúde e riqueza a poucos, enquanto tudo isso é negado a tantos outros.
 
A teoria da hereditariedade, lançada pelos materialistas, aplica-se somente à forma pois, da mesma maneira que um carpinteiro usa material de determinada pilha de madeira para construir uma casa na qual há de viver, também o espírito toma de seus pais a substância com a qual há de construir sua casa. O carpinteiro não poderia construir uma casa resistente e durável usando madeira imprópria; e da mesma maneira, o espírito só pode construir um corpo semelhante ao daqueles de quem tirou o material. Mas a teoria da hereditariedade não se aplica ao plano moral, pois é fato notório que nas galerias dos criminosos da América e da Europa não há um caso em que estejam juntos pai e filho. Assim, embora os filhos dos criminosos tenham herdado tendências para o crime, podem manter-se fora das malhas da Lei. 

A hereditariedade também não é vitoriosa no plano intelectual, porque podem ser citados muitos casos em que um gênio e um idiota saem da mesma origem. O grande Cuvier, cujo cérebro era aproximadamente da mesma capacidade do de Daniel Webster e cujo intelecto foi igualmente grande, teve cinco filhos que morreram de paralisia geral. O irmão de Alexandre, o Grande, foi um idiota; em suma, nos sustentamos que deve ser encontrada outra solução que possa esclarecer esses fatos da vida.
 
A Lei do Renascimento, junto com sua companheira, a Lei da Causa, explicam tais fatos satisfatoriamente. Depois de morrermos, após uma vida, tornamos a voltar mais tarde a Terra, sob circunstâncias determinadas pelo modo pelo qual vivemos antes. O jogador é atraído para os cassinos e para os hipódromos, para associar-se a outros de igual gosto; o músico é atraído para as salas de concertos e conservatórios, para Espíritos que lhe são afins, e o Ego que volta traz consigo os gostos e aversões que o obrigam a procurar seus pais entre aqueles da classe a que ele pertence. 

Mas alguém pode nos apontar agora casos em que se encontram juntas pessoas de gostos inteiramente diversos, vivendo vidas torturadas, pelo fato de se verem agrupadas na mesma família, forçadas pelas circunstâncias a permanecerem ali contra a sua vontade. Isso, porém, não invalida a Lei, de modo algum. Em cada vida contraímos certas obrigações que não podemos cumprir na ocasião. Talvez tenhamos fugido a um dever como, por exemplo, o de atender a um parente inválido, e a morte chegou antes de termos a compreensão desse nosso erro. Esse parente, por sua vez, pode ter sofrido muito por nossa negligência e armazenou contra nós uma grande dose de amargura, antes que a morte terminasse o seu sofrimento. 

A morte, e a conseqüente mudança para outro ambiente, não liquida nossas dívidas desta vida, assim como a mudança de uma cidade na qual vivemos atualmente não liquida as dívidas que tenhamos contraído antes da mudança. É, portanto, perfeitamente possível que aqueles dois que se prejudicaram mutuamente, como descrevemos, venham a ser reunidos como membros de uma mesma família. Então, mesmo que não se lembrem do mal que fizeram, a antiga inimizade se manifestará e fará com que se odeiem novamente, até que a aflição resultante os obrigue a se tolerarem mutuamente e, por fim, talvez, aprendam a se amar, em vez de se odiarem. 
 
Na mente do pesquisador também se apresenta essa pergunta: Seja estivemos aqui antes, por que não nos lembramos disso? Mas a essa pergunta podemos responder que, embora a maioria das pessoas não seja consciente do modo pelo qual passaram suas vidas anteriores, outras há que tem nítida lembrança de suas vidas passadas. 

Uma amiga do autor, por exemplo, quando vivia na França, começou, certo dia, a descrever a seu filho coisas a respeito de uma certa cidade na qual iam fazer uma excursão de bicicleta, e o menino exclamou: "Mãe, não precisa me dizer nada disso; eu conheço essa cidade, porque nela vivi, e nela me mataram".E começou a descrever a cidade, falando de certa ponte. Posteriormente, o rapaz levou a mãe até essa ponte e mostrou-lhe o lugar onde havia encontrado a morte há alguns séculos. 

Outra amiga, por ocasião de uma viagem a Irlanda, viu uma cena que reconheceu, e também descreveu aos companheiros uma paisagem que seria vista atrás de uma volta do caminho, que ela nunca havia visto antes nesta vida; assim, é preciso admitir que ela havia conservado a memória de uma vida anterior. Inúmeros outros exemplos poderiam ser citados, nos quais essas minúcias de memória e vislumbres repentinos revelam-nos fatos de uma vida anterior. O caso comprovado, no qual uma menina de três anos de idade, em Santa Bárbara, descreveu sua vida e sua morte já foi relatado no Conceito Rosacruz do Cosmos. Esta é, talvez, a evidência mais positiva, pois se baseia na narração de uma menina demasiado pequena para que pudesse ter aprendido a mentir.
 
Porém, essa teoria da vida não repousa em mera especulação. Este é um dos primeiros fatos da vida demonstrados ao discípulo de uma Escola de Mistérios. Ensina-se-lhe a observar uma criança a hora da morte, e depois de observá-la no mundo invisível dia após dia, até que ela volte a renascer um ou dois anos mais tarde. Então, ele sabe com absoluta certeza que nós voltaremos a Terra, para colher numa vida futura o que semeamos agora.
 
A razão de escolher-se uma criança de preferência a um adulto é porque a criança renasce muito rapidamente, pois sua curta vida na Terra deu muito poucos frutos, e estes são logo assimilados, enquanto o adulto, que viveu uma longa vida e tinha muita experiência, permanece nos mundos invisíveis por séculos, de modo que o discípulo não poderia observá-lo desde a morte até o renascimento. A causa da mortalidade infantil será explicada posteriormente. Por enquanto, só queremos deixar bem assentado o fato de que está dentro das possibilidades de cada homem, sem exceção, tornar-se capaz de chegar ao conhecimento direto daquilo que aqui estamos ensinando.
 
O intervalo médio entre duas vidas terrestres é de cerca de mil anos. Isto é determinado pelo movimento do Sol, chamado pelos astrônomos de precessão dos equinócios, movimento pelo qual o Sol se move através de cada um dos Signos do Zodíaco cerca de 2.100 anos aproximadamente. Durante esse tempo, as condições sobre a Terra terão mudado de tal maneira que o Espírito encontrará aqui experiências inteiramente novas e por isso voltará.
 
Os Grandes Guias da Evolução sempre conseguem o máximo benefício através das condições que Eles planejam e, como as experiências nas mesmas condições sociais são muito diferentes para o homem e para a mulher, o Espírito Humano renasce duas vezes durante os 2.100 anos medidos pela precessão dos equinócios acima mencionada, nascendo uma vez como homem e outra como mulher. 

Esta é a regra, mas ela está sujeita às modificações que sejam necessárias a fim de facilitar a ceifar aquilo que o Espírito semeou, como requer a Lei da Causa, que atua em conjunto com a Lei do Renascimento. Desse modo, um espírito pode ser levado a renascer muito tempo antes que haja expirado os mil anos, a fim de cumprir certa missão, ou pode ser retido nos mundos invisíveis até depois do tempo em que deveria renascer, se essa lei fosse uma lei cega. Mas as Leis da Natureza não são cegas. 

São Grandes Inteligências que sempre subordinam as considerações de menor importância aos fins superiores, e sob sua benéfica orientação estamos progredindo constantemente, vida após vida, nas condições exatamente adaptadas a cada indivíduo, até que, com o tempo, alcancemos uma evolução mais elevada e nos convertamos em Super-homens.
 
Oliver Wendel Holmes expressou tão magistralmente 
esta aspiração e sua realização nestas linhas:
 
"Oh! Minh'alma, constrói para ti mansões mais majestosas,
enquanto as estações passam ligeiramente!
Abandona o teu invólucro finalmente;
Deixa cada novo templo, mais nobre que o anterior
com cúpula celeste, com domo bem maior,
e que te libertes, decidida,
largando tua concha superada nos agitados mares desta vida."
 
 Fonte:
Fraternidade Rosacruz Max Heindel - Centro Autorizado do Rio de Janeiro
 
Rua Enes de Souza, 19 Tijuca,  Rio de Janeiro, R.J. Brasil  20521-210 ,

O PROBLEMA DA VIDA E A SUA SOLUÇÃO - Max Heidel

 

Por Max Heinde

O problema da Vida

Entre todas as vicissitudes da vida, embora a experiência humana varie muito de indivíduo para indivíduo, há um acontecimento que e inevitável para todos: a Morte! Não importa qual seja a nossa posição social; se a vida que vivemos foi louvável ou não; se nossa passagem entre os homens ficou marcada por grandes feitos; se vivemos uma vida saudável ou de enfermidades; se fomos famosos e rodeados de amigos ou obscuros e solitários, chegará um momento em que estaremos sós, diante do portal da Morte, e seremos forçados a dar um salto no escuro.
 
O pensamento sobre esse salto e o que possa existir além, força toda criatura a pensar. Nos anos de juventude e saúde, quando o barco da nossa vida navega nos mares da prosperidade, quando tudo nos parece belo e brilhante, podemos por de lado tal pensamento; mas certamente chegará um dia na vida de toda pessoa sensata em que o problema da Vida e da Morte impor-se-á à sua consciência, recusando-se a ser posto de lado. Nem será de grande proveito aceitar uma solução preconcebida, forjada por qualquer um, sem reflexão e na base da fé cega, porque esse é um problema fundamental que cada pessoa deve resolver por si mesma, para ficar satisfeita.
 
No limite oriental do Deserto do Saara está a mundialmente conhecida Esfinge, com sua face impenetrável voltada para o Leste, sempre saudando o Sol, quando seus primeiros raios anunciam um novo dia. Diz a mitologia grega que era habito desse monstro formular um enigma a todo viajante, devorando aqueles que não sabiam responder acertadamente. Mas quando Édipo resolveu o enigma, a Esfinge destruiu-se a si mesma.
 
O enigma que a Esfinge propunha aos homens era o da Vida e o da Morte, uma questão que tinha tanta importância naquele tempo quanto hoje, e para o qual cada um deve encontrar uma resposta ou será devorado na mandíbula da morte. Mas, uma vez que a pessoa tenha encontrado a solução para o problema, tomar-se-á evidente que, na realidade, a Morte não existe e aquilo que se parece com ela não passa da mudança de um estado de existência para outro. Portanto, ao homem que encontra a verdadeira solução para o enigma da vida, a Esfinge da morte deixa de existir e ele pode elevar sua voz num grito triunfante: "Oh Morte, onde está o teu aguilhão? Oh tumulo, onde está a tua vitória?".
 
Várias teorias tem sido formuladas para se resolver esse problema da vida. Essas teorias podem ser divididas em duas classes fundamentais: a teoria monística, que sustenta que todos os fatos da vida podem ser explicados, tomando-se como base este mundo visível no qual vivemos, e a teoria dualista, que explica uma parte destes fatos por fenômenos da vida ocorridos em mundos que estão fora do alcance da nossa visão física.
 
A Escola de Atenas é um fresco de Rafael Sanzio, 
com cerca de 7,7m na base,pintado entre 1509 e 1510 
na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano.
 
No seu famoso quadro "A Escola de Atenas", Rafael apresentou de uma forma muito hábil as atitudes dessas duas escolas de pensamento. Vemos nesse maravilhoso quadro um átrio Grego, semelhante aqueles em que os filósofos outrora costumavam congregar-se. Sobre os diversos degraus que conduzem ao interior do edifício, vê-se um grande número de homens mergulhados em profunda conversação, mas, no centro, no cimo dos degraus, permanecem duas figuras que se supõe serem Platão e Aristóteles, um apontando para cima, o outro para a terra, encarando-se mudos, mas com profunda e concentrada determinação, cada um pretendendo convencer o outro de que sua opinião é a verdadeira, porque ambos estão convictos em seu coração. Um deles sustenta que é feito do barro da terra, que veio do pó, ao qual voltará; o outro advoga firmemente a idéia de que há algo superior que sempre existiu e continuará existindo, não importa o que possa acontecer ao corpo em que se vive agora.
 
Detalhe do  fresco em que aparecem ao centro Platão e Aristóteles.
Platão segura o Timeu e aponta para o alto,
sendo assim identificado com o ideal,  
o mundo inteligível.
Aristóteles segura a Ética e tem a mão na horizontal,
representando o terreste, o mundo sensível.
 
A questão de saber quem está certo ainda se acha sem solução para a grande maioria da humanidade. Milhões de toneladas de papel e muita tinta foram gastas em tentativas inúteis de chegar-se à resolução da questão com argumentos, mas permanecerá a interrogação para todos que não solucionaram o enigma por si mesmos, porque esta é uma questão fundamental, faz parte da experiência da vida de cada ser humano resolvê-la e, portanto, ninguém pode nos dar a solução final para a nossa satisfação. Aqueles que realmente solucionaram esse problema, tudo o que podem fazer é mostrar aos outros o caminho que os levou a encontrar a solução e, desse modo, conduzir o investigador para que também possa pelos próprios esforços chegar a uma conclusão.
 
Esta é a finalidade deste pequeno livro. Não se pretende oferecer uma solução para o problema da vida, para que ela seja aceita cegamente, pela confiança na capacidade de investigação do autor. Os ensinamentos aqui expostos foram oferecidos por meio da Grande Escola Ocidental de Mistérios Ordem Rosacruz, e são o resultado dos testemunhos de grande número de videntes exercitados, e que foram comunicados ao autor e suplementados por sua investigação pessoal dos planos atravessados pelo Espírito na sua jornada cíclica, desde o mundo invisível até este plano de existência e o seu retomo.
 
Não obstante, adverte·se o estudante de que o autor pode ter entendido de modo errado alguns dos ensinamentos e de que, apesar do maior cuidado que teve, pode ter tomado algum ângulo errôneo daquilo que acredita ter visto no mundo invisível, no qual as possibilidades de se equivocar são múltiplas. 

Aqui, no mundo que nos cerca, as formas são fixas, não mudam facilmente; mas no mundo ao nosso redor, perceptível somente à visão espiritual, podemos dizer que não existe realmente a forma e que tudo ali e vida. Para ser mais exato, as formas são tão mutáveis que as metamorfoses descritas nos contos de fadas ocorrem ali com uma freqüência impressionante e, por esta razão, temos as surpreendentes revelações de médiuns e clarividentes inexperientes que, embora honestos, são enganados pela ilusão da forma, que é efêmera, por serem incapazes de ver a vida, que constitui a base permanente da forma.
É preciso que aprendamos a ver nesse mundo. 

A criança de poucos meses ainda não consegue avaliar bem o espaço e pretende apanhar objetos que estão fora do seu alcance, até que aprenda a calcular as distâncias. Uma pessoa cega que readquire a capacidade da visão por uma operação, no princípio estará inclinada a fechar os olhos quando for de um lugar para outro, e dirá que, para ela, e mais fácil caminhar pelo tato do que pela visão, devido ao fato de que ainda não aprendeu a usar sua nova faculdade. Do mesmo modo, a pessoa cuja visão espiritual se tenha manifestado recentemente, precisa de treinamento e, neste caso, a instrução é ainda mais necessária do que à criança e ao cego já mencionados. Negar a alguém essa instrução seria o mesmo que colocar uma criança recém-nascida num berçário onde as paredes fossem recobertas por espelhos de diferentes curvaturas, côncavos e convexos, que retorcessem e desfigurassem sua própria imagem e a dos que a assistem. 

Se uma criança crescesse em tal ambiente e não lhe fosse possível ver a forma real das coisas, a sua e a dos companheiros, naturalmente acreditaria que as formas reais seriam aquelas deformadas que se habituou a ver, quando, na realidade, os espelhos seriam os causadores dessa ilusão. Se a criança e as pessoas envolvidas numa experiência desta índole fossem um dia retiradas desse lugar ilusório, não seriam capazes de reconhecer as formas naturais até que fossem devidamente treinadas para isso. 

Aqueles que desenvolveram a visão espiritual estão expostos a sofrer tais ilusões, até que sejam instruídos para ajustar-se à distorção e ver a vida, que é permanente e estável, desprezando a forma, que é evanescente e instável. O perigo de ver as coisas fora de foco permanece sempre e é tão sutil que o autor sente o dever imperativo de advertir aos leitores para que tomem todas as suas citações referentes aos mundos invisíveis com a maior cautela, pois ele não tem a menor intenção de enganar ninguém. Sente-se, antes, inclinado a aumentar do que a diminuir suas próprias limitações, e aconselharia o estudante à não aceitar nada do que o autor escreveu sem primeiro raciocinar por si mesmo. Desse modo, se ele se enganar, ter-se-á enganado sozinho, não podendo censurar o autor por isso.

       Paz & Bem
   Adeir
 Fonte:
christianrosenkreutz
 

Paz & Bem
--- Em sáb, 7/3/09, Alexandre David <hercullesrj@yahoo.com.br> escreveu:
De: Alexandre David <hercullesrj@yahoo.com.br>
Assunto: [christianrosenkreutz] O Problema da Vida e a sua Solução
Para: christianrosenkreutz@yahoogrupos.com.br,
santuariorosacruz@yahoogroups.com, 
"Portal Rosacruz" <portalrosacruz@gruposyahoo.com.ar>
Data: Sábado, 7 de Março de 2009, 1:50

ALBERTO ANDRÉ DELPINO FILHO


Alberto André DELPINO JUNIOR
Delpino em 1976 , por Ade
 
  Pindura Saia, óleo s/tela, 1947






















 Pindura-saia

Nasceu em Barbacena, MG. Pintor, desenhista, ilustrador e caricaturista. Freqüentou o ateliê de seu pai, Alberto André Delpino. 

Publicou sua primeira caricatura na revista carioca Fon-Fon antes de completar dez anos. Em 1916 participou do I Salão dos Humoristas. Seus desenhos tornaram-se capas das revistas O Cruzeiro e Semana Ilustrada.

Expôs em Juiz de Fora, Cataguases, Rio Branco, São João Nepomuceno e outras cidades mineiras. Atuou em jornais e revistas cariocas, como A Pátria, Jornal do Brasil, Para Todos, Ilustração Brasileira, O Papagaio, O Tico-Tico, O Malho e Fon-Fon, no período em que residiu no Rio de Janeiro (1927-1930). Sua primeira exposição em Belo Horizonte, tão logo inaugurada no saguão do Teatro Municipal, em outubro de 1930, foi violentamente fechada e invadida pelas forças militares que fizeram a Revolução de 1930. 

Coordenou a 1ª Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte, no Bar Brasil, em 1936. Foi um dos incentivadores da criação dos salões de arte da Prefeitura, que se instalaram na cidade a partir de 1937.

Integrou a mostra comemorativa do centenário de Belo Horizonte, Emergência do Modernismo em Belo Horizonte, no Museu Mineiro (1996). 

 

ORFEU


Orfeu 
 
Filho de Eagro, rei da Trácia, e da musa Calíope; músico e poeta, inventor da lira de nove cordas, com a qual era capaz de domar as forças naturais; participou da expedição dos Argonautas e, viajando pelo Egito, iniciou-se nos mistérios do templo de Ísis; quando sua mulher, adríade Eurídice, morreu, recebeu de Zeus a permissão de ir buscá-la no Hades; domou Cérbero e as Fúrias com sua lira e conseguiu que sua mulher lhe fosse devolvida, mas com a condição de não olhar para ela antes de ter chegado ao mundo dos vivos; mas como Eurídice se lamentasse de que ele não a amava mais, pois nem mais a olhava, não resistiu à tentação de contemplá-la e ela tornou a morrer.
 

Orfeu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Orfeu, de Moreau (1826–1898)
 
Na mitologia grega, Orfeu era poeta e músico, filho da musa Calíope e de Apolo ou Eagro, rei da Trácia[1]. Era o músico mais talentoso que já viveu. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Ganhou a lira de Apolo. Alguns dizem que era seu pai.

Foi um dos cinquenta homens - os argonautas - que atenderam ao chamado de Jasão para buscar o Velocino de Ouro. Acalmava as brigas que aconteciam no navio com sua lira. Durante a viagem de volta, Orfeu salvou os outros tripulantes quando seu canto silenciou as sereias, responsáveis pelos naufrágios de inúmeras embarcações.

Orfeu apaixonou-se por Eurídice e casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela tropeçou em uma serpente que a picou e a matou. Por causa disso, as ninfas, companheiras de Eurídice, fizeram todas as suas abelhas morrerem.

Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o Mundo dos Mortos, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada, e os encantou com seu canto.

Finalmente Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo[1]. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos[1]. Mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol[1].

Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele não olhou nenhuma vez para trás, até atingir a luz do sol. Mas então se virou, para se certificar de que Eurídice o estava seguindo.

Orfeu rodeado de animais, Museu Cristão-Bizantino, Atenas
 
Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do Mundo dos Mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada.

Posteriormente deu origem ao Orfismo, uma espécie de serviço de aconselhamento; ele ajudava muito os outros com seus conselhos , mas não conseguia resolver seus próprios problemas, até que um dia,furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas Mênades caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos. 

Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice! Eurídice!"

Chorando, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no monte Olimpo. Dizem que, desde então, os rouxinóis das proximidades cantaram mais docemente que os outros. Pois Orfeu, na morte, se uniu à sua amada Eurídice.
Quanto às Mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. 

Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em carvalhos silenciosos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram ao chão.

Algumas interpretações deste mito, dizem que as pessoas que se dedicam a ajudar os outros, (Psicologia, psiquiatria, assistente social e até mesmo aqueles que fazem muita caridade), são pessoas que reconhecem que sofrem ou sofreram algum problema grave e agora buscam estas áreas tentando evitar que os outros, sofram o que eles sofreram, ou seja, é aquele que cura mas que não consegue se auto curar.Dizem ainda que no fundo essas pessoas estão se auto enganando, pois evitar que os outros sofram, não vai apagar o que eles mesmos sofreram.
 
Orfeu e Eurídice

Grande herói da Trácia, Orfeu era conhecido não pelas suas qualidades de guerreiro, mas pelas suas qualidades musicais. Filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu do pai uma lira como presente e aprendeu a tocar com tanta dedicação e beleza, que ninguém conseguia ficar indiferente ao encanto da sua música. Tanto os seres humanos como os animais, e diz-se que até as árvores e os rochedos, se rendiam ao seu fascínio.

Orfeu amava apaixonadamente a ninfa Eurídice. No dia do casamento de ambos, esteve presente Himeneu para abençoar a união, mas o fumo da sua tocha fez lacrimejar os noivos, o que não trouxe augúrios favoráveis. Pouco tempo depois, Eurídice passeava com as ninfas, quando foi surpreendida pelo pastor Aristeu, que, ao vê-la, se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe fez no pé.

Orfeu, inconsolável, tocou e cantou aos homens e aos deuses, mas nada conseguiu. Decidiu, então, descer ao reino dos mortos para conseguir recuperar Eurídice. Perante o trono de Hades e Perséfone, Orfeu cantou o seu desgosto e o seu amor dizendo que, se não lhe devolvessem Eurídice, ele próprio ficaria ali com ela, no reino dos mortos. 
 
Todos os fantasmas que o ouviam choravam e Hades e Perséfone ficaram tão comovidos que lhe devolveram Eurídice. Mas com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior. Caminhando na frente, Orfeu, que estava quase a chegar aos portões de Hades, com receio de ter sido enganado por Hades, virou-se para trás para confirmar se Eurídice o seguia. Esta, com os olhos cheios de lágrimas, foi levada para o mundo dos mortos, por uma força irreversível. Orfeu tentou alcançá-la, mas sem êxito.

Profundamente triste, Orfeu ficou na margem do rio, durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando a volta de Eurídice. Depois, vagueou triste e solitário pelo mundo, sem nunca mais querer saber de mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir, até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram. O seu corpo foi atirado ao rio Ebro e levado até à ilha de Lesbos, onde, durante muito tempo, a cabeça de Orfeu, presa numa rocha, proferia oráculos. A sua lira foi colocada num templo de Lesbos.

Outra lenda diz que as musas enterraram Orfeu, em Limetra, num túmulo onde o rouxinol canta mais suavemente do que em qualquer outra parte da Grécia e a lira do jovem apaixonado foi colocada por Zeus entre as estrelas. Orfeu encontrou por fim Eurídice e, abraçando-a, nunca mais deixou de contemplá-la.
 Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre.
Infopédia
 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Orfeu
http://www.infopedia.pt/$orfeu-e-euridice>. : 

SANTO AGOSTINHO: A VERDADE E A FELICIDADE RESIDEM EM DEUS - Miguel Duclós




Santo Agostinho
Por Miguel Duclós

    Este texto procura elucidar brevemente os pontos do pensamento agostiniano que são necessários para poder compreender porque, para este autor, o homem pode conhecer apenas pela graça divina, mas tem o dever moral de preparar sua alma e seu corpo para receber esta luz e de fazer bom uso do livre-arbítrio. Procurei fazer associações despretensiosas com outros traços da cultura anterior a sua época, como a mitologia helênica. 

    No Livro VII das Confissões e no diálogo O Livre Arbítrio , Agostinho argumenta especificamente sobre o problema do mal. Tem ele o mal como algo presente, e nos primeiros livros das Confissões , identifica-o em sua infância e na sua juventude libertina, ocorridas antes do episódio de agosto de 386 que o levou à conversão, (1)e antes de sua convivência com Santo Ambrósio, que o batizou e a quem chama de agente de Deus. 

    Sendo Deus eterno e imutável, autor de coisas muito boas, qual é, então, a origem do mal? Agostinho sabe, quando isto pergunta, que a origem do mal é tradicionalmente explicada pela Igreja Católica com a queda do Arcanjo Lúcifer. Embora as referências Bíblicas ao Maligno como ex-Arcanjo sejam escassas, e o próprio nome Lúcifer (formado a partir do latim lux ) e a hierarquia angelical tenham sido forjadas com o decorrer da Idade Média, ainda assim encontramos algumas passagens bíblicas que ilustram bem este tema daqueles que querem ser como Deus e por isso são punidos.

Alguns exemplos estão no Velho Testamento, em Isaías 14:
    ”12 Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra, tu que debilitava as nações!

    13 E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei meu trono, e no monte da congregação me assentarei, da banda dos lados do norte.

    14 Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.

    15 E contudo levado será ao inferno, ao mais profundo do abismo. “(2)

    Ou no Novo Testamento, no Apocalipse segundo São João, no capítulo 12, onde há uma mulher, possivelmente virgem Maria, que dá à Luz um varão “que há de reger todas as nações com vara de ferro” e é tentada pelo Dragão da maldade, que após isso tem de enfrentar as tropas celestiais: 

    ”7 E houve uma batalha no céu. 
Miguel e seus anjos batalhavam contra o dragão, 
e batalhava o dragão e seus anjos. 

    Mas não prevaleceu, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
    E foi precipitado o grande Dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.”


    Satanás na terra tenta os homens,
mas o Apocalipse prossegue explicando
que é vencido pelo poder do Cordeiro, o Jesus Cristo. 

    Não podemos também esquecer que no Gênesis, a Serpente consegue seduzir Eva prometendo-lhe que esta ficaria igual a Deus se comesse o fruto proibido, e era por isso que Deus lhe proibira. Realmente, após comer a queda, Deus fala para seus anjos: ” E eis que o homem é um de nós, sabendo o que é bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a tua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e via eternamente” ( Gen, 3, 22). Começa então, segundo a Bíblia, a condição miserável do homem, obrigado a trabalhar para garantir seu sustento, e a se abrigar para fugir do frio. Este trecho sugere que o homem estará eternamente condenado a escolher entre o Bem e o Mal. Então, tanto a queda do primeiro anjo quanto a queda do primeiro homem é causada por um ato livre de vontade, em que se pretende ser igual a Deus. 

    No capítulo 3 do livro VII das Confissões , Agostinho se pergunta, a respeito de Lúcifer: “E se por uma decisão de sua vontade perversa, se transformou de anjo bom em demônio, qual é a origem daquela vontade má com que se mudou em diabo, tendo sido criado Anjo perfeito, por um criador tão bom?”. Logo, não ignora o problema da origem do mal tal qual a Igreja Católica o explica, mas vai ainda além, perguntando a origem da perversão da vontade nas criaturas boas criadas por Deus. 

    A argumentação segue considerando que, naturalmente, o mal não provém de Deus, mas está nas coisas criadas e na matéria. As coisas criadas “não existem absolutamente nem totalmente deixam de existir” (Livro VII, cap 11). As coisas existem enquanto participam da Suma Existência, daquele que é, do Imutável, e deixam de existir quando se afastam dele. As coisas que se corrompem são boas ao menos em parte, pois não haveria o que se corromper se fossem totalmente más.

Porém, não são como Deus, absolutamente boas, pois se assim fosse seriam incorruptíveis. Assim, o mal ocorre quando as criaturas se afastam de da existência, ou seja, o mal não existe propriamente, mas é um não-ser. Tudo é verdadeiro enquanto existe e a falsidade só ocorre quando se toma por existente o não existente. Agostinho no capítulo 16 do livro VII, chega à definição do mal como uma perversão da vontade desviada da Substância Suprema – Deus. 

    Se Deus é a suma Existência e a Suma Bondade, os seres para alcançar a verdade tem de procurá-lo. Julgar que o caminho para se atingir a verdade seja humano, ou dependa apenas de esforços humanos, constitui soberba, pois a verdade é externa e independente do homem. Para Agostinho, o conhecimento da Verdade depende em última instância da Graça Divina, que agracia apenas alguns escolhidos. Qual é o dever moral do homem então, qual é o seu campo de ação, se ele parte em busca da verdade sem saber se a vai encontrar? Procurarei tratar deste tópico a seguir. 

    Como aponta Novaes, em seu artigo “Nota sobre o problema da universalidade em Agostinho, do ponto de vista da relação entre fé e razão”, Agostinho destoa tanto dos aristotélicos, quanto dos estóicos e epicuristas em sua concepção de felicidade. Os primeiros tomam a felicidade como uma atividade da alma em consonância com a virtude, os segundos como um vigor da alma e os terceiros como a vontade do corpo. Para um cristão, porém, a felicidade é um dom de Deus. 

Não obstante, o homem deve procurá-la através da purificação da alma. Para purificar a alma o homem tem de reconhecer a condição miserável da humanidade após o pecado original, e tem de ter a humildade de reconhecer o a felicidade como alheia a si.

O homem tem de se tornar digno de receber a graça. 

A idéia da ascese da alma é muito importante também para os platônicos e neoplatônicos (3), que influenciaram Agostinho profundamente. Mas Agostinho vê nesta doutrina o erro crucial de Porfírio, por não ter reconhecido que o verdadeiro caminho não é humano, mas provém do Absoluto, de Deus. (4) 

    O homem é mais especial que as outras criações de Deus, e que os outros seres dotados de alma (animais), pois tem uma alma racional. O homem é especial porque foi feito à imagem e semelhança de Deus. {5} No Gênesis, antes da queda, Deus concede ao homem que usufrua livremente da terra. Para Agostinho, a semelhança do homem com o seu criador é a razão. Deus, conhecedor de todas as coisas, possui também a razão infinita. Porém a razão humana está corrompida, e distante da divina. 

O homem tem um “déficit moral”, 
e por isso não consegue cumprir plenamente 
a sua natureza de animal racional.

E mesmo os bebes já nascem no pecado, como exemplifica Agostinho em sua autobiografia, quando se recrimina pelo seu deleite durante o amamentamento. 

Os desejos e as paixões impedem um bom uso da razão, e impedem uma vida contemplativa. Mesmo ao se recolher em seu monastério, se entregando à devoção religiosa ao lado de companheiros como Alípio e Evódio, Agostinho nunca conseguiu se livrar das preocupações mundanas. Era afastado do otium intelectuale , por exemplo, pelas suas obrigações com o povo em suas funções sacerdotais ou familiares. 

    O problema do pecado original é fundamental para compreender-se o que se segue, por isso me demorarei um pouco mais nele. Antes de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, a alma encontrou sua perfeição no paraíso. Livre de dúvidas e incertezas, o homem apenas era no seio da natureza. Nada foi negado a Adão e Eva, e eles estavam integrados à toda criação, circulando livremente e de maneira abençoada. Mas a vontade é infinita, e ao homem foi dado o poder de escolher. 

Assim, seduzida pela serpente Eva desobedece ao único mandamento até então, e o homem, sabendo o que é mal e o que é bem, pode escolher entre os dois, e pode portanto, se afastar do Bem do Supremo Ser. Ele passa a poder querer o mal, e é sobre este ponto de vista que a purificação da alma deve ser entendida. Esta é necessária para a escolha certa quando a graça se apresentar. 

A liberdade, para Agostinho, vem a ser a capacidade consciente e reflexa que tem o espírito de determinar por si e espontaneamente, a querer e preferir acima de tudo o Bem absoluto e perfeito, do modo que este se lhe apresente, e nunca preferindo nada contrário. Deus, do alto, abarca a todos aqueles que o invocam com um olhar e pode iluminar alguns com sua graça. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
   
Esta é a causa dos pecados da humanidade,
o livre-arbítrio. 

Pela perversão da vontade o homem escolhe a privação do ser. Este quadro só encontra redenção em Jesus Cristo, o mediador entre Deus e os homens. O cristão tem de aceitar pela fé o mistério da Trindade, que Jesus Cristo é o verbo encarnado, vindo ao mundo terrenos e morto pelos homens, para redimir a humanidade. É preciso pois, que o homem tenha fé, e acredite em algo além de si e do mundo sensorial, em algo invisível. Precisa ter a humildade de admitir seu “déficit moral” e que o caminho da verdade lhe é extraposto (NOVAES, 34). 

    A purificação da alma para receber a revelação é feita de várias formas. Agostinho defende ardorosamente um ascetismo, chegando a condenar o casamento e a procriação, e a cantar a maravilha do celibato. O homem precisa se livrar das paixões, e por paixões entende-se tudo aquilo que move (ou comove) a alma. Somente uma alma estável é capaz de perceber a Idéia. Para esta elevação do espírito, é necessário também o auto-conhecimento. (6)
 
   Estando a alma purificada, está preparado o terreno para conhecer. A fé chama a razão para algo além dela própria, para o mistério. À razão cabe investigar os conteúdos da fé. Como aponta Novaes, não há uma oposição entre estas duas formas de conhecer, porém uma reciprocidade, uma completude, uma convergência. 

“Para entender, com o intuito de entender, 
uma condição é crer. 
Mas o que é entendido, o que é inteligido, 
exige novamente a fé, e assim por diante.”
(NOVAES, 41). 

Há uma precedência do invisível sobre o visível, do transcendente (inteligível) sobre o sensível. A alma é hierarquicamente superior ao corpo. O homem precisa crer para entender. (7) Este entendimento é feito racionalmente, Mas o conhecimento da razão divina ultrapassa em muito a finitude da razão humana, e por isso o homem precisa novamente da fé para alcançar o conhecimento, sendo que este não se esgota nunca, nem quem bebe do conhecimento de Deus sacia sua sede. (8)
  
  No Livro X das Confissões Agostinho faz uma brilhante exposição sobre a memória, chegando mesmo a dizer que a memória é o espírito, ou a parte mais importante da alma humana. Nesta exposição está contida o grosso da doutrina Agostiniana de reminiscência, e suas adaptações em relação ao platonismo. Farei mais um vôo panorâmico para explicá-la.
   
A memória era importante já desde a cultura helênica clássica. Na Teogonia de Hesíodo ela aparece como parte da primeira geração divina, como uma deusa, filha de Urano e Géia ( mnemósina ), que, amada por Zeus, foi mãe das nove Musas. De uma forma geral, pode-se dizer que sem memória não é possível conhecer. A memória está também associada ao destino das almas quando a morte ocorre e ela deixa o corpo, para ir ao Hades. Existe um poema órfico (9) que pretende guiar a alma ao chegar na mansão de Hades: (10) 

    ”Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,
    E a seu lado, um branco cipreste.
    Não te aproximas deste manancial.
    Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,
    De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.
    Diz-lhes: “Sou um filho da terra e do céu estrelado;
    Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.
    E – ai de mim! – estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamente
    A água fresca que flui da Fonte da Memória”.
    E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,
    E desde então tu dominarás entre os outros heróis”.
(11)

    As almas puras devem beber da sagrada fonte da memória, ao passo que as almas impuras devem banhar-se no rio Lete afim de se esquecer de seus “pecados” e iniquidades e poderem reencarnar. As almas puras poderão manter seu Ser e habitar junto aos deuses, em companhia dos heróis.
    Mas voltemos à Agostinho. Diz o bispo de Hipona que nos recônditos do palácio da memória estão guardados todas as sensações e vivências dos indivíduos. Nas inúmeras concavidades e recônditos secretos estas imagens apresentam-se à inteligência, que as une, relaciona e ordena. 

Algumas imagens que residem na memória são fornecidas pelos sentidos, mas o entendimento que reside na memória não é. No livro X, capítulos 10-12 das Confissões , o autor exemplifica afirmando que, apesar de ter ouvido haver três espécies questões (12), não foi por nenhum dos sentidos do corpo que atingiu o significado contido nestes sons, mas o viu somente em espírito. Da mesma maneira, as inúmeras regras dos números e das dimensões estão guardadas na memória, mas não vieram pelos sentidos. Como resume Agostinho “os números são uma coisa e as idéias que eles exprimem outras”. (13) 

    De uma forma diferente, a felicidade também habita na memória. O homem antes do pecado original, foi em um tempo feliz, e ainda há resquícios desta felicidade. A vida feliz só pode ser alcançada quando se busca a Deus. É voltando a ele que o homem atinge a verdadeira felicidade, e seu ser se completa. 

Como diz Agostinho, “Tarde Vos Amei, Senhor”, pois sem que ele o soubesse, Deus sempre esteve presente em sua vida, e sua desesperança só teve fim quando retornou à Deus, ou quando se lembrou de Deus. Esta volta só pode ser feita por intermédio do Cristo. A teoria agostiniana de reminiscência afasta-se da teoria platônica, contudo. Nesta, a alma contempla as Formas eternas antes de nascer, em outro mundo. (14) Em Agostinho a contemplação da luz divina não é uma lembrança da vivência anterior da alma, mas uma irradiação presente. Deus ilumina o intelecto com sua luz, tornando-o capaz de conhecer segundo sua ordem natural. 

    Para Agostinho, todos os homens querem ser alegres e felizes, mas a verdadeira alegria só vem de Deus. A carne e seus apelos, a matéria, podem levar o homem a confundir-se e fazer aquilo que pode fazer, mas não aquilo que realmente quer fazer. Deus é a felicidade porque é a verdade. E a alegria reside na verdade. Esta é uma só, e Deus a sua fonte. Reside ela na memória, pois, como exemplifica Agostinho, desde o episódio de sua iluminação em que encontrou a serenidade de espírito, Agostinho encontrou sempre a mesma verdade, e dela se lembrou. Desde que conheceu a Deus, dele se esqueceu, e este permanece em sua memória como fonte de suas delícias. 

    Resumindo, o homem deve invocar a Deus, mas este já habita nele. Para voltar a encontrar a verdade, tem de purificar sua alma, livrando-se principalmente do orgulho e da soberba, das comoções da carne, seguindo exemplo de Jesus Cristo, que foi ao mesmo tempo Deus e homem, verbo imortal e carne perecível. Este morreu para salvar o homem do pecado original.
    Em último lugar, gostaria de fazer umas breves associações com Platão, não obstante as advertências dos perigos de “platonizar Agostinho”, que me levam a fazê-las timida e superficialmente, na forma de lembrança. 

    Também em Platão o homem deve procurar a virtude, deve levar a vida corretamente. Mas o problema da ascese da alma não é meramente humano, como critica Agostinho. Afinal, vê-se no Mênon e no Protágoras , que, em última instância são os escolhidos aqueles que alcançarão a verdade. Péricles, exemplo de homem virtuoso, não conseguiu ensinar a virtude aos seus filhos. É feita uma associação com as três Moiras (ou parcas), as Deusas do destino, a quem até mesmos os outros deuses, como Zeus, estão submetidos.

É por escolha dos deuses (graça divina? ) que são designados os daimons aos homens. O próprio Sócrates, é de certa forma, escolhidos pelos deuses, como vaticinou o Oráculo de Delfos ao apontá-lo como o mais sábios dos homens, ou como indicam o seu guia interior, a voz do daimon que lhe mostrava o caminho certo ( Apologia de Sócrates ), ou o sonho místico que teve na prisão, às vésperas de ser executado, tal como é descrito em Críton . Apesar disso, em Platão, aquele que procura a verdade também tem de enfrentar um duro caminho de purificação, através da ascese dialética, e há igualmente uma forte ascendência da alma sobre o corpo- que no Fédon chega a ser negativizado.
   
Em Platão, o tema do mal também é bastante presente. Gostaria apenas de salientar que no Protágoras , chega-se à conclusão que nenhum homem deseja o mal (assim como Agostinho) , mas o escolhe apenas por ignorância do que seja o bem.
Notas
  1. Este episódio pode assim ser descrito brevemente: Agostinho buscava angustiado a solução para o problema da existência, em um sofrido conflito consigo mesmo, quando, no jardim de sua casa cai em pranto e se afasta do seu companheiro Alípio. Chorava então na sombra de uma figueira, clamando a Deus por uma solução, quando ouve uma voz de criança oriunda das vizinhanças, que em canto repetia “Toma e lê, Toma e lê”. Interpreta isso como um sinal para que leia alguma lição evangélica ao acaso, a exemplo do que ocorrera com Antão. Volta então à companhia de Alípio, aonde havia deixado a Bíblia e lê uma passagem de Paulo de Tarso. Seu coração então é penetrado pela luz da serenidade e sua alma inundada pela paz. Esta conhecida historieta, interpretada como um milagre, é narrada no capítulo 12 do Livro VIII das Confissões .
  2. A tradução usada da Bíblia foi a de João Ferreira de Almeida. Este trecho, contudo, é controverso, pois no início deste capítulo Isaías dá a entender que se trata de um poderoso tirano da Babilônia, possivelmente Nabucodonossor.
  3. Pode-se dizer de uma maneira geral a maior parte da obra de Platão está identificada com a procura da definição e prática da virtude. O tema da superioridade da alma sobre o corpo, e de sua purificação durante a vida para que não seja punida após a morte é explicitado, por exemplo no último livro da República e no diálogo Fédon .
  4. Esta desavença está mostrada em Sermo 150, 7, 9 apud Novaes, Moacyr, op. cit . Porfírio, como se sabe, foi o organizador das obras do principal neoplatônico, Plotino, este por sua vez discípulo de Amônio Sacas.
  5. Gen 1, 27 , que diz : “E criou o homem à sua imagem e semelhança, à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou”. Uma nota destoante de nossos propósitos, mas interessante é a observação de que a criação da fêmea está contida neste versículo, porém Eva só é criada posteriormente em 2, 21. Isto deu origem à lenda de Lilibith, que teria sido a primeira companheira de Adão, símbolo máximo da feminilidade arrebatada.
  6. O tema do auto conhecimento – a essência, afinal, das Confissões , é, como sabemos, caro para toda a tradição filosófica, desde a sua origem. Platão no início do Protágoras encara este ( gnôthi s´authon - Conhece-te a ti mesmo) um dos princípios máximos da antiga filosofia Lacedemônica, sendo depois inscrito na entrada do Oráculo de Delphos. O outro princípio máximo dos lacedemônicos era “Nada em excesso”, que está de pleno acordo com o tema da mediania, da justa medida, da prudência, que permeia tanto a mitologia quanto a filosofia grega – por exemplo na Ética a Nicômaco de Aristóteles, aonde este define a virtude como um meio termo entre a falta e o excesso.
  7. “Se não crerdes não entendereis” é a fórmula agostiniana que ficou famosíssima como mais um dos chavões usados para exemplificar e sintetizar o pensamento de um filósofo, e foi retirada do profeta Elias, 7, 9. “Entretanto a cabeça de Efraim será Samaria, e a cabeça de Samaria, o filho de Remalias, se o não crerdes, certamente não ficareis firme”.
  8. Deus em sua totalidade é insondável, e qualquer tentativa de abarcá-lo com palavras está fadada ao fracasso. Agostinho retira do Êxodo o que julga ser a melhor definição. Neste trecho Moisés pergunta ao Senhor o que deve dizer na Aldeia quando lhe perguntarem quem encontrou, e Deus assim se define “Eu sou o que Sou”, ou em outras traduções, “Eu sou aquele que é”.
  9. O orfismo foi o criador da metempsicose (transmigração das almas), e associado ao pitagorismo, deu origem a uma das mais veneráveis e secretas seitas de todos os tempos. Baseia-se sobretudo no mito de Orfeu e Eurídice. Este mito pode ser assim resumido: Orfeu era filho do deus Eagro e da musa da Poesia trágica Calíope (portanto neto da memória). Encantava a todos com o seus versos e sua lira. Se casou com a adorável nêiade Eurídice, mas o matrimônio durou pouco, pois esta, fugindo de um pastor, morreu ao ser picada por uma cobra venenosa. As súplicas da música dolorosa de Orfeu tocaram aos deuses, e lhe foi concedido resgatar sua amada no reino das sombras (o Hades), desde que durante a volta não olhasse para trás e visse Eurídice sequer uma vez. Tomado pelo amor e curiosidade, Orfeu dá uma olhadela, e ele vê sua esposa sofrer a segunda morte. Este mito é erroneamente tomado como a única ocasião em que foi concedido a um mortal penetrar no reino do Hades com vida e retornar, mas isto não é verdade, pois Odisseu (ou Ulisses), como é relatado no canto XI da Odisséia, graças à deusa Circe, consegue penetrar na mansão de Hades e de sua terrível esposa Perséfone. Lá vagueiam cegas as almas dos mortos, e Odisseu conversa com eles, inclusive com sua mãe.
  10. O problema do guia no Hades era fundamental, visto que ao morrer as almas ficam cegas, e transformam-se em sombras. Para tomar o caminho certo nos recônditos do Hades, ir aos Campos Elíseos, por exemplo, era preciso que o homem tivesse um bom guia, um bom daimon. Aliás, a origem da palavra felicidade em grego ( eudaimonia ) está naqueles escolhidos pelos deuses para ter um daimon .
  11. Poema inscrito na tábua de Petélia, citado por Bertrand Russel em História da Filosofia Ocidental vol.1 e por Junito de Souza Brandão em Mitologia Grega , vol. 1.
  12. No exemplo ele fala de “se uma coisa existe ( an sit )? qual sua natureza ( quid sit )? e qual sua qualidade ( quale sit )?”.
  13. capítulo XII do Livro X. Em outras palavras, a imagem do número fornecida pelos sentidos é diversa de seu significado.
  14. Em Platão, como é sabido, conhecer é se lembrar. A melhor ilustração da teoria da reminiscência de Platão está contida no Mênon , em que Sócrates, dialogando com um jovem e inculto escravo, o força a reconhecer um problema complexo de leis geômétricas em quadradados, apenas através de hipóteses e da lógica.
    BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL
  • Agostinho, Santo. Confissões . Tradução de J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. Livraria Apostolado da Imprensa, 5ª edição. Porto, Portugal, 1955 .
  • Agostinho, Santo. Confissões e De Magistro in Volume Santo Agostinho da Coleção Os Pensadores. Editora Abril Cultural. Vida e Obra de José Américo de Mota Pessanha. 
  • Agostinho, Santo. Do Livre Arbítrio . Tradução de Antônio Soares Pinheiro. Editora da Universidade de Braga, Faculdade de Filosofia.
  • Novaes, Moacyr. “Nota sobre o problema da Universalidade em Agostinho, do ponto de vista da relação entre fé e razão. in Cadernos História da Filosofia e Ciência. pg 31-54. vol. 7 nº2. Editora Unicamp. Campinas, 1997.

 Fonte:
CONSCIÊNCIA:.ORG
 
http://www.consciencia.org/confissoessanto_agostinho.shtml