segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PINTURA : AS APARÊNCIAS ENGANAM


Desde que pinturas passaram a valer milhões, é preciso tomar muito cuidado para não confundir um Picasso com um picareta: alguns falsificadores se tornaram verdadeiros mestres na arte de copiar

por Sérgio Miranda
Henricus Anthonius van Meegeren nasceu em Deventer, na Holanda, em 10 de outubro de 1899. Contra a vontade do pai, que desejava fazer do filho um arquiteto, ele decidiu se dedicar à pintura. Aos 14 anos, ganhou uma medalha de ouro em um concurso de desenho. Em pouco tempo, passou a ensinar como professor assistente em cursos de Arte. Aos 18 anos, apresentou sua primeira exposição de pinturas.

Em 1921, ficou três meses na Itália estudando os mestres renascentistas e, no ano seguinte, realizou uma exposição de suas telas sobre temas bíblicos na cidade holandesa de Haia – todas as obras foram vendidas. Em 1927, alcançou uma boa avaliação em uma casa de leilões com sua tela O Cervo. Mas, mesmo dotado de indiscutível talento, Van Meegeren esbarrou nos críticos de arte. Seu estilo, na visão deles, era muito antiquado, incompatível com os novos rumos da pintura. Acabou marginalizado.

Em setembro de 1937, entretanto, um quadro pintado por Van Meegeren atraiu uma multidão ao Museu Boymans de Roterdã, na Holanda. As pessoas queriam ver Cristo e os Discípulos em Emaús. A obra era tecnicamente perfeita, mas, em vez de ser assinada pelo autor, trazia o nome de Jan Vermeer, genial pintor holandês que viveu entre 1632 e 1675. Sem conseguir ser reconhecido como um grande nome da pintura, Van Meegeren tinha resolvido pegar outro grande nome emprestado.

A farsa funcionou perfeitamente. O museu apresentou o quadro ao público como um trabalho inédito de Vermeer. O festejado crítico Abraham Bredius, especialista nesse pintor, havia sido chamado para dar um parecer sobre a tela. O “papa”, como era conhecido por sua influência no mundo da pintura, publicou sua opinião na revista Burlington: “É um momento maravilhoso na vida de um amante da arte quando se encontra confrontado com uma pintura desconhecida de um grande mestre, intocada, na lona original, e sem nenhuma restauração, exatamente como deixou o estúdio do pintor! Temos aqui – sou inclinado a dizer – a obra-prima de Jan Vermeer.”

A declaração de Bredius bastou para confirmar a autenticidade da tela. A Sociedade Rembrandt acabou adquirindo a pintura, para em seguida doá-la ao próprio Museu Boymans. Pagou o equivalente hoje a 1,8 milhão de libras (cerca de 6,5 milhões de reais) ao agente que Van Meegeren tinha encarregado de vender o quadro.

A capacidade de imitar com perfeição o estilo de Vermeer acabou fazendo com que Van Meegeren se envolvesse com gente meio barra-pesada. Em 1943, em plena ocupação da Holanda pelos nazistas, um alto oficial alemão pagou 4 milhões de libras em valores de hoje (perto de 15 milhões de reais) por Cristo e a Adúltera. A tela, mais uma falsificação de Van Meegeren atribuída a Vermeer, foi comprada pelo marechal Hermann Goering, um dos preferidos de Adolf Hitler. Depois de chamar seu secretário e determinar que o quadro fosse enviado à sua vila em Berchtes-gaden, no sul da Alemanha, o satisfeitíssimo Goering teria dito: “Enfim, conquistei a Holanda”.

Em maio de 1945, após a rendição dos alemães e o fim da Segunda Guerra na Europa, os aliados encontraram as 1 200 obras de arte da coleção particular de Goering – a maioria delas tinha sido adquirida em pilhagens feitas ao longo do conflito. Lá descobriram Cristo e a Adúltera, e o processo de investigação sobre a pintura levou à prisão de Van Meegeren, que havia se tornado um próspero colecionador de arte. Interrogado, ele alegou que sua fortuna se originava da venda de alguns quadros de Vermeer adquiridos de famílias italianas. Não convenceu. A justiça holandesa decidiu acusá-lo de colaborar com o nazismo durante a ocupação de seu país – crime para o qual era prevista a pena de morte.

Duas semanas depois de ter sido detido, Van Meegeren defendeu-se da acusação de colaboracionista dizendo que ele próprio tinha pintado Cristo e a Adúltera. Assim, reivindicava para si o status de herói nacional, pois havia ludibriado o poderoso Goering. Para fundamentar seus argumentos, confessou ter pintado mais cinco Vermeers falsos, além de quadros atribuídos a outros artistas, colocados no mercado de arte a partir de 1937. O mais célebre desses trabalhos era justamente Cristo e seus Discípulos em Emaús, orgulho do Museu Boymans.

Originalidade
Van Meegeren nunca copiou nenhuma obra de Vermeer. A única coisa que ele falsificava era a assinatura do mestre holandês. Para parecerem autênticos, os trabalhos eram feitos sobre telas de pintores desconhecidos do século 17 – com uma pedra de polir, a pintura original era cuidadosamente removida. Além disso, assim como Vermeer, Van Meegeren construiu pincéis com pêlos de texugo e criou suas tintas com misturas moídas a mão. Para dar o efeito de rachaduras na pintura, usava resina. Por fim, jogava pó de tinta na pintura, simulando envelhecimento.

No tribunal, Van Meegeren disse que tinha resolvido produzir falsos Vermeers para se vingar dos críticos de arte. No fim dos anos 20, ele escrevia artigos e ilustrava capas para a De Kemphaan, revista fundada em 1928 para se opor ao vanguardismo e valorizar a pintura tradicional. Mas, diante do sucesso de movimentos como o dadaísmo, que proclamavam a morte da arte clássica, a publicação fechou suas portas após dois anos de existência. Indignado, Van Meegeren se mudou, em 1932, para Roquebrune, no sul da França. Ali, colocou sua habilidade a serviço da falsificação.

Como uma espécie de exercício, produziu primeiramente quatro pinturas – não vendidas – em estilo do século 17, duas delas à moda de Vermeer: Tocador de Guitarra e Mulher em Leitura de Música. Após essa primeira experiência, ganhou confiança suficiente e pintou, em 1936, o Cristo e os Discípulos em Emaús, considerado o mais perfeito de seus trabalhos. Depois que o quadro foi aceito unanimemente como um Vermeer autêntico, Van Meegeren estava decidido a ir a público assumir a farsa. Assim, demonstraria que a crítica de arte, tolerante com os vanguardistas, era ignorante e incapaz de julgar o bom e o ruim. Mas, quando viu que poderia enriquecer com as falsificações, desistiu da idéia original.

O tribunal decidiu investigar a versão de Van Meegeren. Na vila em que ele vivia, as autoridades acharam pedaços da mesma madeira usada no suporte da tela exposta no Museu Boymans. Foi o suficiente para que a corte o autorizasse a demonstrar o que estava dizendo. Entre novembro e dezembro de 1945, o réu foi colocado em uma casa alugada pelo governo e observado 24 horas por dia por seis testemunhas. Com os materiais e as técnicas que havia usado para as outras pinturas, Van Meegeren pintou – confiando somente em sua própria imaginação – uma tela que chamou, ironicamente, de Jesus entre os Doutores.

Durante os dois anos seguintes, o julgamento ganhou pitadas de sensacionalismo.

Várias das obras de Van Meegeren eram mostradas na corte durante as audiências. O pintor se mostrou desapontado por não receber reconhecimento de artistas e críticos quando assinava com seu próprio nome, embora fosse capaz de fazer uma tela valiosíssima no estilo do século 17. Ao fim do julgamento, a acusação de colaboracionista havia sido retirada e Van Meegeren virou uma espécie de herói nacional. Pelo crime de falsificação, entretanto, foi condenado a um ano de prisão. Com 58 anos de idade e a saúde abalada pelo alcoolismo, Van Meegeren foi hospitalizado e morreu um mês mais tarde, de ataque cardíaco. Não chegou a cumprir sequer um dia da sentença.

O caso de Van Meegeren evidenciou um dilema que dura até hoje. O que vale mais: a obra em si ou quem a teria feito? Não deveríamos avaliar uma pintura por seus componentes internos, como pinceladas, perspectiva e cores? Cada vez que se descobre uma obra falsa que era tida como verdadeira, essa questão ressurge. E, embora exista tecnologia avançada para evitar fraudes (veja quadro acima), os falsificadores continuam atuando. “De algumas décadas para cá, eles chegaram a um ponto em que fica difícil, mesmo para um bom especialista, perceber a diferença entre uma obra autêntica e uma falsa”, diz o pesquisador Patrick Laycock, do Laboratório de Arte de Bruxelas, um dos mais equipados do mundo.

Ele afirma que, neste início de século 21, entramos na era das “falsificações científicas”: os pilantras acompanham o desenvolvimento dos métodos de investigação e desenvolvem técnicas para tentar burlar os novos exames à medida que eles surgem.

Prenda-me se for capaz

Jansen tinha 13 estúdios para copiar 13 pintores
Nos anos 80, o comerciante de obras de arte holandês Geert Jan Jansen arrumou um jeito fácil de ganhar dinheiro. Ele vendia reproduções de gravuras do pintor expressionista Karel Appel como se fossem originais. Para enganar os clientes, adicionava uma assinatura falsa do artista holandês aos pôsteres. Mais tarde, o falsário resolveu pintar ele mesmo obras copiando Appel. Aos poucos, incluiu no seu repertório nomes como Matisse, Miró e Picasso. Jansen aprendeu a imitar com perfeição a técnica de cada um deles, usando os mesmos tipos de pincel, tela e tinta. Junto às obras forjadas, ele enviava uma declaração datilografada, selada e assinada por um especialista, garantindo sua autenticidade. Tudo falso, obviamente.

Mas um erro de grafia no certificado de uma pintura fez com que as autoridades holandesas fossem acionadas. Antes de ser localizado, Jansen conseguiu fugir para a França, onde comprou uma casa com 13 salões e, em cada um deles, montou um estúdio dedicado a falsificar um artista específico. Sob o nome de Jan van der Bergen, ele continuou no mercado de arte, até ser preso em 1994. Durante um ano e meio, Jansen ficou detido aguardando julgamento na França. Condenado por fraude, teria que ficar mais seis meses na cadeia.

Mas, ao conseguir liberdade condicional, se mandou para Amsterdã, onde resgatou 100 obras escondidas. Desde então, boa parte delas já foi vendida na Europa – ele não revela para quem. “Não faço pinturas falsas. As minhas são autênticas. Afinal, foram aprovadas por especialistas em Paris, Londres...”, disse o irônico Jansen no documentário Arte Cobiçada, de 2003 (exibido ano passado no Brasil pelo Discovery Channel). Quando prendeu o holandês, há mais de dez anos, a polícia francesa recolheu 1 600 obras. Todas deveriam ter sido destruídas, mas Jansen garante que muitas são verdadeiras. Como as autoridades não conseguem identificar as autênticas, Jansen já foi convidado a ir a Paris para buscar as telas originais. O problema é que, uma vez na França, ele teria que cumprir o resto da pena – e não está nem um pouco inclinado a fazer isso.

Em nome do filho

Telas  falsas  de  Myatt  continuam expostas por aí
O anúncio, publicado na revista inglesa Private Eye em 1985, era bem direto: “Vendo pinturas falsas dos séculos 19 e 20 por 240 libras”. Após ser deixado pela esposa, foi essa a alternativa encontrada pelo britânico John Myatt para poder trabalhar em casa e cuidar sozinho do filho pequeno. E funcionou: as “falsificações autênticas” atraíram uma boa clientela e acabaram por despertar a atenção de John Drewe, influente colecionador de obras de arte da Inglaterra. O novo cliente chegou a encomendar dez obras em um único ano. Mais tarde, Drewe revelou a Myatt que a conceituada casa de leilões Christie’s, de Londres, aceitara um quadro dele como autêntico e o comprara por 25 mil libras.

De olho na multiplicação dos lucros, o pintor passou a trabalhar quase que exclusivamente para o colecionador. Durante quase uma década, produziu 200 falsificações de mestres como Matisse, Chagall e Van Gogh. Em setembro de 1995, a polícia chegou até Myatt, que confessou ser o autor das cópias. Em abril de 1996, policiais invadiram a galeria de Drewe, onde encontrou material usado para forjar certificados de autenticidade das telas.

O colecionador havia, inclusive, alterado a documentação de obras genuínas para ligá-las às falsificações. Após ficar dois anos preso, o colecionador desapareceu do mercado de arte. Já Myatt foi condenado a um ano de cadeia, do qual cumpriu só quatro meses. Hoje, ele pinta e expõe seus próprios trabalhos, mas ainda aceita algumas encomendas para uso privado.

Dos quadros que Myatt fez para Drewe, apenas 80 foram identificados pela polícia, em casas de leilão e galerias de arte londrinas. Mais de 100 das falsificações continuam à venda no mercado de arte ou exibidas ao público como se fossem verdadeiras. Talvez até você, leitor, já tenha visto uma delas numa exposição. “Não entendo por que tanto barulho em torno disso”, disse Myatt em Arte Cobiçada. “Esse é um crime que não faz vítima. Quando o trabalho é bem feito e a pintura é vendida por um bom preço, ela adquire vida própria e vai continuar sendo comercializada. Ninguém perde.”

O sumiço da odalisca

Dentro do museu, obra de Matisse foi trocada por uma cópia grosseira                                                           
O jornalista venezuelano Edgar Moreno não acreditou quando um amigo lhe contou que uma das obras-primas do Museu de Arte Contemporânea de Caracas estava sendo vendida em Miami, nos Estados Unidos. No mesmo dia, no fim de 2002, Moreno foi ao museu e verificou que Odalisca com Pantalonas Vermelhas, do francês Henri Matisse, continuava no mesmo lugar. Aliviado, contou a história para a diretora da instituição, Rita Salvestrini. Mas, dois dias depois, a diretora anunciou que o museu estava expondo um quadro falso. “Fiquei chocada quando descobri que mostrávamos uma falsificação grosseira como se fosse verdadeira”, disse Rita em Arte Cobiçada. Não se sabe de que forma a obra original saiu do museu, nem como foi trocada pela falsa. Segundo os investigadores, pelo menos um funcionário teria colaborado.

A data do sumiço é desconhecida, mas a polícia já sabe que o quadro foi oferecido a negociantes franceses que visitaram Nova York em outubro de 2000 – um documento assinado por supostos funcionários do museu de Caracas autorizava a venda. Em dezembro de 2001, em Paris, Vanda Idibrian, especialista em Matisse, foi chamada para confirmar a procedência da obra. Mesmo reconhecendo-a como autêntica, recusou-se a fornecer qualquer certificado. Ela sabia que a pintura pertencia ao museu de Caracas. Vanda afirma ter relatado o fato à instituição, que não tomou providência.

O Odalisca com Pantalonas Vermelhas original foi visto pela última vez em dezembro de 2002, logo após a denúncia ter sido confirmada pelo museu. Naquela época, uma mulher não-identificada retirou a pintura de um guarda-volumes especializado em obras de arte e fugiu dos Estados Unidos. As polícias americana, venezuelana e de vários países europeus ainda investigam o caso. Se ainda não foi vendido, o quadro deve estar escondido, na expectativa de que a história esfrie.

Arte popular

Confira a listados pintores mais falsificados
1. Salvador Dalí
O surrealista espanhol é o preferido dos falsários. O próprio Dalí colaborou para isso, pois vendia telas em branco assinadas. Seu secretário chegou a ser preso, acusado de falsificar 10 mil gravuras.

2. Henri Matisse
No fim da vida, o francês se envolveu com uma arrumadeira, que acabou se tornando especialista na obra de Matisse. Suspeita-se que ela tenha enriquecido autenticando quadros que não foram pintados por ele.

Via a falsificação com tranqüilidade. Certa vez, um comerciante de arte mostrou ao espanhol uma cópia de um de seus trabalhos. O pintor exclamou: “Você pagou tudo isso?! Então deve ser autêntico!”

4. Joan Miró
O uso limitado de cores e padrões facilita a reprodução dos quadros do catalão. Além disso, os materiais utilizados pelo artista (e por pintores modernos em geral) continuam disponíveis em lojas.

5. Marc Chagall
Cuidadoso com sua obra, tinha profunda preocupação em ser copiado. Junto com seu advogado, o pintor francês nascido na Bielo-Rússia fazia questão de perseguir os falsificadores de suas pinturas.

Olho clínico

A tecnologia usada pelos caçadores de imitações
Nos mínimos detalhes
Um dos melhores jeitos de pegar um falsário é achar áreas retocadas – elas dão boas pistas sobre o ato de falsificar. Acima, um técnico do Instituto Doerner, na Alemanha, analisa com o microscópio uma cópia de um quadro do germânico Lucas Cranach (1472-1553).

Através das tintas
O scanner infravermelho é um aparelho que revela as camadas inferiores da pintura. Ao usar esse tipo de luz, os especialistas conseguem ver, por exemplo, se o falsificador fez um esboço do quadro original e, posteriormente, o cobriu com tinta.

Fase azul
Ao ser exposta à iluminação ultravioleta, a pintura se torna fluorescente. Mas as partes retocadas se mantêm escuras. É o que acontece no canto superior direito da falsificação vista acima.

Saiba mais

FILME
Moça com Brinco de Pérola, Peter Webber, 2003
Com belíssima fotografia, retrata Vermeer e sua época ao contar a história do quadro que dá nome ao filme, considerado a Mona Lisa holandesa.

SITES
www.tnunn.f2s.com/vm-main.htm
Descreve, com boas imagens e detalhes técnicos, como Van Meegeren foi capaz de inventar quadros idênticos aos pintados por Vermeer.

www.johnmyatt.com/
Página de Myatt, em que ele conta sua história e vende telas inspiradas em mestres da pintura.
 Amor
Fonte
Abril.com
AVENTURAS  NA HISTÓRIA
http://historia.abril.com.br/cultura/pintura-aparencias-enganam-434595.shtml
Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres. 
Sejam abençoados todos os seres.

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